
Nesta sexta-feira (7), o jornalista publicou um artigo dizendo que os
setores da imprensa agrediram os fatos, a democracia e os seus leitores.
No texto, Azevedo cita a real estimativa de público que compareceu à
manifestação, e as matérias absurdas que foram publicadas a respeito do
ajuntamento de evangélicos. Confira o texto na íntegra:
A grande imprensa brasileira, com as exceções costumeiras, escreveu um
capítulo vergonhoso de sua história na quarta-feira. Cerca de 70 mil
pessoas — segundo estimativas da Polícia Militar do Distrito Federal
(nesta sexta, publicarei um vídeo; aguardem um pouco) — participaram de
uma manifestação em Brasília em defesa da liberdade de expressão, da
liberdade religiosa, da família tradicional e da vida (leia-se: contra o
aborto). Num dia útil, certamente arcando com o custo de faltar ao
trabalho — ninguém ali tinha o “ponto” abonado nem estava sendo pago por
partido —, milhares de pessoas atenderam à convocação de diversas
denominações cristãs para expressar o seu ponto de vista sobre temas que
estão em debate na sociedade e que são do interesse dos brasileiros.
Não obstante, aquelas 70 mil pessoas foram praticamente ignoradas pelo
jornalismo. A IRONIA: UMA DAS PALAVRAS DE ORDEM DA CONCENTRAÇÃO ERA
ESTA: CONTRA O CONTROLE DA MÍDIA.
Reproduzo palavras do pastor Silas Malafaia, um dos organizadores do evento:
“Senhores da imprensa, nós, que somos chamados de fundamentalistas,
queremos uma imprensa livre até para falar mal de nós. Nós não queremos
cercear imprensa, não. Agora, eu fico vendo esses esquerdopatas, que
querem o controle da mídia para controlar o conteúdo… Eles estão
pensando que o Brasil é Nicarágua, Venezuela, Bolívia, Equador e
Argentina. Aqui, não! Imprensa livre, sempre livre!”
Não saiu praticamente uma linha do que disse Malafaia sobre o assunto.
Também se omitiram as críticas muito duras que ele fez aos mensaleiros
(voltarei a tratar do assunto em outro post). Setenta mil pessoas
pediram em coro cadeia para a quadrilha — enquanto Luís Roberto Barroso,
na CCJ do Senado, dizia que o STF foi muito duro com aqueles patriotas.
E também isso se omitiu. Publicarei, reitero, um vídeo com trechos da
fala de Malafaia.
Houve coisa pior do que omissão: uma reportagem do Estadão Online
atribuiu ao pastor o que ele não disse, a saber: que união homoafetiva é
crime. Não falou isso. Afirmou outra coisa: que não aceitava que sua
opinião, que é contrária, fosse criminalizada, como faz o PLC 122.
Não há por que omitir os fatos. É evidente que uma concentração que
tinha na sua pauta, também, a defesa da família tradicional (homem,
mulher e sua prole) opõe-se ao casamento e ao ativismo gays. E isso foi
dito lá de maneira clara e inequívoca. Era um aspecto importante do
protesto, mas era um deles. Não é menos evidente que a esmagadora
maioria da imprensa considera essa opinião “conservadora”,
“reacionária”, “atrasada” — escolham aí o adjetivo. O mesmo se diga
sobre o aborto, duramente atacado no evento. Eis outro item da pauta
dita “progressista” — nunca ninguém conseguiu me explicar por que o
mundo e a moral progridem com a morte de fetos…
A imprensa — ou “as imprensas” — tenha a agenda que quiser! Como
afirmou o pastor, que ela seja livre até para falar mal das opiniões e
das pessoas da praça. Mas omitir??? Fazer de conta, como se fez, que a
coisa não estava acontecendo??? Tratar a concentração como se estivesse
um curso um evento corriqueiro, sem importância? Só não acho que ficou
caracterizada a “censura” porque considero que a palavra cabe quando a
interdição é aplicada pelo Estado. Mas se trata, sim, de um ânimo
censor, que agride a essência do jornalismo.
Estaremos, agora, diante de um novo paradigma, que consistirá em
esconder aquilo de que se discorda? Qual é a medida? Se 500 marcham nas
ruas em defesa da maconha, a foto vai parar nas primeiras páginas —
afinal, é a “pauta progressista”. Se 70 mil fazem um coro contra a
descriminação das drogas — e isso também ocorreu —, faz-se de conta que
nada aconteceu?
Pois é… Volta e meia, José Dirceu, o chefe de quadrilha do mensalão —
até, ao menos, que eventuais e ilegais embargos infringentes não livrem a
sua cara —, manda alguém escrever lá no seu blog um ataque qualquer à
imprensa, pedindo o “controle da mídia”. Por incrível que pareça, a
mídia que ele quer controlar se encarrega de reproduzir suas cretinices.
Afinal, disse-me outro dia alguém, a imprensa tem de fazer isso para
demonstrar que é isenta e não tem preconceitos…
Ah, bom! Agora entendi! Para mostrar que é isenta e não tem
preconceitos, até os ataques de Dirceu à liberdade de expressão são…
livremente expressos! Mas os 70 mil da praça, que falaram EM DEFESA da
liberdade de expressão, ah, esses foram tratados com menoscabo ou com
desrespeito mesmo: “Afinal, não pensam o que pensamos; têm uma pauta
reacionária…”.
O que pretende para si mesma a imprensa que age desse modo? Digam-me
cá: os 70 mil que foram para a praça, numa quarta-feira gorda, tinham
sido convocados por quem? Pelos jornais, TVs e sites noticiosos já
tradicionais? Acho que não! As igrejas evangélicas têm seus próprios
sistemas de comunicação e não dependem da boa vontade de estranhos para
existir. Tratou-se de uma omissão vergonhosa, constrangedora. E, claro,
havia jornalistas em penca lá.
Essência da democracia
A essência da democracia é o dissenso. O papel da imprensa não é
exercer uma censura informal sobre a diversidade de opiniões. Ao
contrário. Converter o espaço noticioso em área de militância é um
comportamento fascistoide, que agride o fundamento da pluralidade e da
liberdade.
Faltassem-nos exemplos, deveríamos olhar para o governo de Barack
Obama, nos EUA. Em nome das liberdades civis que estariam ameaçadas no
governo Bush; em nome da pluralidade, que estaria sendo agredida pelos
supostos fundamentalistas de Bush; em nome da, santo Deus!, da
diversidade, à qual os republicanos de Bush seriam hostis, ONGs,
movimentos sociais, imprensa, academia, intelectuais etc. se juntaram
num grande coro de adoração ao candidato e depois presidente da
República e à sua agenda progressista.
Quis o destino — que, para mim, sempre foi a lógica dos fatos — que
aquele grande progressista liderasse o governo que montou o mais amplo,
profundo e nefasto sistema de espionagem no país, que inclui a
perseguição a adversários por organismos do estado e a invasão do sigilo
de jornalistas.
A liberdade é e será sempre o direito de divergir. Infelizmente, amplos
setores da imprensa tentaram cassar dos evangélicos esse direito. Para
estes, a agressão foi irrelevante porque, reitero, não dependem dessa
visibilidade para existir. Para o jornalismo, no entanto, a coisa é
séria: há o risco de que o paradigma da pluralidade esteja se perdendo.
Os cristãos, sempre que julgarem necessário, voltarão às praças. Espero
que essa imprensa de agenda tenha como voltar a seus leitores.
Fonte /O Verbo